Um ano após as mortes de Bruno e Dom: Perguntas sem resposta sobre o crime brutal no Vale do Javari
O ativista indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips foram brutalmente assassinados na região da tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Embora tenha se passado um ano desde essas mortes trágicas, ainda há perguntas sem respostas claras a serem respondidas sobre o caso.
Nesta segunda-feira completa um ano da morte de Bruno Pereira e Dom Phillips - Foro Reprodução / Internet
Nesta segunda-feira (05) completa um ano do terrível crime das mortes do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips no Vale do Javari. O duplo assassinato deixou perguntas sem resposta e trouxe à tona questões urgentes sobre a segurança e a preservação dos povos indígenas na região amazônica. A data da morte de Bruno e Dom coincide com o Dia do Meio Ambiente. No cenário atual, o Brasil ocupa a quarta posição entre os países que mais registram mortes de defensores e defensoras de direitos humanos, especialmente os que vivem em prol do meio ambiente.
Bruno e Dom
Bruno trabalhava em uma organização não governamental (ONG), onde seu trabalho consistia em buscar diálogos e alternativas para garantir a sustentabilidade das atividades de pesca na segunda maior terra indígena (TI) do Brasil, conhecida como Vale do Javari. Essas atividades eram altamente predatórias e tinham efeitos no meio ambiente e nas comunidades indígenas. Paralelamente, Bruno, que era jornalista e colaborador do veículo britânico The Guardian, dedicava-se à escrita de um livro que abordava as ameaças ambientais, o que o tornava uma figura incômoda para muitos pescadores ilegais da região.
Assassinato
O indigenista e o jornalista foram emboscados e mortos no dia 5 de junho de 2022, nas proximidades da comunidade de São Rafael, localizada na região da tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Esse foi o último local onde eles foram vistos com vida. Diante da ausência de notícias sobre a dupla, a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) mobilizou suas equipes mais próximas para realizar buscas. Durante a tarde, uma embarcação partiu de Atalaia do Norte, seguida algumas horas depois por um segundo grupo em uma embarcação maior saindo de Tabatinga.
No dia seguinte (6), surgiram as primeiras informações de que um jornalista estrangeiro havia desaparecido na Floresta Amazônica. Os órgãos públicos começaram a tratar o assunto de forma pública. Na ocasião, a Marinha comunicou à imprensa que havia sido notificada do desaparecimento naquela manhã e que uma equipe de busca e salvamento da Capitania Fluvial de Tabatinga já havia sido enviada ao local. A Polícia Federal (PF) também confirmou que estavam sendo realizadas diligências, posteriormente afirmando que seriam fornecidos mais detalhes.
Conforme o tempo avançava, o desaparecimento do correspondente do The Guardian e do ativista indigenista na vastidão da Floresta Amazônica recebia cada vez mais atenção nos veículos de imprensa ao redor do mundo. Ao mesmo tempo, intensificava-se a percepção de que algo extremamente grave poderia ter ocorrido. De acordo com as investigações, eles foram cruelmente executados. Ambos foram alvejados com tiros nas costas por pescadores ilegais, que posteriormente queimaram, desmembraram e enterraram seus corpos em uma cova rasa às margens de um rio. Essas ações foram realizadas sob ordens de financiadores associados ao crime organizado.
Buscas sendo efetuadas e os corpos quando fora localizados - Foto Reprodução / Internet
Prisões
Em 6 de junho de 2022, ocorreu a instauração de um procedimento pelo Ministério Público Federal (MPF) com o intuito de investigar o caso em questão. Com o objetivo de auxiliar as equipes de busca da Univaja, foram acionadas as forças de segurança federais e estaduais, bem como a Marinha. Além disso, a Polícia Civil do Amazonas também iniciou um inquérito. Após a obtenção de depoimentos de testemunhas, chegou-se a um suspeito inicial, Amarildo da Costa Oliveira, conhecido como Pelado, que foi detido no dia seguinte, em 7 de junho.
No início, Pelado negou qualquer envolvimento no desaparecimento de Bruno e Dom. No entanto, além dos depoimentos de testemunhas que afirmaram ter presenciado ameaças feitas por ele ao jornalista e ao indigenista, peritos da Polícia Federal descobriram vestígios de sangue no barco que ele utilizou no dia em que a dupla desapareceu. Em 12 de junho, os bombeiros encontraram objetos pertencentes a Bruno e Dom, o que reforçou a suspeita de que, nessa altura, os dois já estavam mortos.
Após ser confrontado com provas, Pelado confessou sua participação nos assassinatos e na ocultação dos corpos do indigenista e do jornalista, revelando o local onde os corpos estavam sepultados. Essas informações resultaram na prisão de Oseney da Costa de Oliveira, irmão de Pelado, conhecido como Dos Santos, em 14 de junho, e na prisão de um mandado de prisão para Jefferson da Silva Lima, também conhecido como Pelado da Dinha, que foi entregue à Polícia Civil em Atalaia do Norte quatro dias depois.
No dia 8 de julho, ocorreu a detenção de um novo suspeito. Ruben Dario da Silva Villar, um colombiano apontado como claro mandante dos assassinatos e suspeito de envolvimento com o narcotráfico, foi inicialmente preso por apresentar uma identidade falsa durante o depoimento sobre o caso.
Ao ser questionado, Vilar negou sua participação nas mortes de Bruno e Dom. Apesar disso, a Polícia Federal solicitou que ele permanecesse detido durante o inquérito. No dia 22 de outubro, após o pagamento de uma fiança de R$ 15 mil, uso de tornozeleira eletrônica, a entrega de seus passaportes e o compromisso de não deixar Manaus, ele foi autorizado a sair da prisão. Entretanto, ele acabou sendo preso novamente em dezembro por não cumprir as condições impostas pela Justiça.
O que falta responder?
Por que o Ministério Público Federal (MPF) denunciou apenas três pessoas, apesar de mencionar outros nomes na denúncia, que supostamente estariam envolvidos na ocultação dos corpos queimados e esquartejados de Bruno e Dom?
Quais são as linhas de investigação em relação aos mandantes do crime (até o momento, apenas um foi preso), as verdadeiras motivações e o contexto da preparação da emboscada?
Quais medidas o Estado brasileiro adotou para garantir o cumprimento da medida cautelar da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que solicitou proteção aos indígenas da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja)?
Qual é a conexão entre os assassinatos de Bruno e Dom e o assassinato de Maxciel dos Santos, funcionário da Funai e antigo colega de Bruno?
Qual é a origem da arma do crime antes de chegar ao suspeito apontado como fornecedor?
Quais são os próximos passos do caso após o recente indiciamento do ex-presidente da Funai e outros servidores por omissão no homicídio e ocultação de cadáver de Bruno e Dom?
Existe alguma ligação entre a investigação dos assassinatos de Bruno e Dom e a investigação sobre a atividade criminosa e armada de ribeirinhos relacionada à pesca de pirarucu nas comunidades de São Rafael e São Gabriel, localizadas às margens do Rio Itacoaí?
Conclusão
Passado um ano das mortes de Bruno e Dom no Vale do Javari, o caso fica sem respostas conclusivas. Esse crime cruel evidencia a vulnerabilidade dos indígenas e daqueles que se dedicam a proteger e garantir seus direitos em regiões da Amazônia brasileira, trazendo à tona também questões urgentes sobre segurança e preservação ambiental.






























