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Terapia genética oferece esperança contra dependência alcoólica grave, aponta estudo

2 de set. de 2025
4 min de leitura

A pesquisa conduzida nos Estados Unidos sobre a liberação de dopamina revelou que, após passarem pelo tratamento, os macacos reduziram seu consumo em até 90%.

A dependência se manifesta através de um desejo incontrolável de ingerir álcool e uma dificuldade em controlar o consumo - Foto Reprodução/Internet




A dependência alcoólica é um problema de saúde global que afeta milhões de pessoas, prejudicando tanto a saúde física quanto a mental dos indivíduos e suas relações interpessoais. No entanto, um novo estudo promissor aponta para um possível avanço no tratamento dessa condição debilitante através da terapia genética que está atualmente em fase de testes em indivíduos com doença de Parkinson e pode representar uma abordagem singular no tratamento da dependência severa de álcool.


O Desafio da Dependência Alcoólica


A dependência é caracterizada por um desejo compulsivo de consumir álcool e dificuldade em controlar o consumo, apesar das consequências negativas para a saúde e a vida pessoal. Ela é influenciada por uma complexa combinação de fatores genéticos, ambientais e neurobiológicos, o que a torna uma condição difícil de tratar. O abuso do álcool constitui o principal elemento de risco para óbitos, incapacidades e questões de saúde entre indivíduos de 15 a 49 anos. Dados divulgados em fevereiro deste ano pela Organização Mundial de Saúde (OMS) indicaram que o consumo excessivo e abusivo de álcool é a causa de 2,8 milhões de óbitos por ano no mundo.


Estudo


Uma pesquisa realizada em macacos com predisposição para consumo excessivo de álcool revelou uma redução drástica no consumo após a intervenção. A professora Kathleen Grant, co-líder do estudo e vinculada ao Centro Nacional de Pesquisa de Primatas da Universidade de Ciências da Saúde de Oregon, em Beaverton, EUA, relatou que o consumo de álcool foi praticamente eliminado. Durante meses consecutivos, esses animais optaram por ingerir água, demonstrando uma clara aversão ao álcool.


Similar a outras substâncias com propensão para vício, o álcool desencadeia a liberação de dopamina, um composto químico ligado ao bem-estar, no cérebro. No entanto, o consumo prolongado reduziu essa liberação de dopamina, resultando em uma diminuição do prazer associada ao ato de beber. Consequentemente, pessoas com dependência alcoólica frequentemente buscam aumentar o consumo para sustentar um estado de embriaguez.


“Parece que eles estão bebendo mais porque sentem necessidade de manter um estado de embriaguez”, disse Grant.

A ideia da terapia genética busca reestruturar o sistema de recompensa da dopamina, amplificando a atividade das células aéreas responsáveis ​​pela síntese dessa substância. Semelhante aos seres humanos, certos macacos têm maior predisposição a consumir grandes quantidades de álcool do que outros. Quando são apresentados com uma alternativa de uma solução contendo 5% de álcool, equivalente em potência à cerveja, juntamente com suas fontes habituais de comida e água, observe-se que alguns macacos tendem a escolher consistentemente o álcool.


Grant e os demais membros de sua equipe perguntaram sobre a possibilidade de diminuir o desejo por consumo de álcool ao reajustar os circuitos de recompensa de dopamina. Para alcançar tal objetivo, eles empregaram um vírus inofensivo para introduzir o gene codificador de uma proteína chamada fator neurotrófico derivado da glia (GDNF) em uma região cerebral associada ao vício e à sensação de recompensa.


“Nós visamos os corpos celulares que produzem dopamina com este gene para aumentar a síntese de dopamina, reabastecendo ou restaurando o que o consumo crônico tirou”, afirmou Grant.

Quatro primatas com dependência alcoólica foram submetidos ao experimento, o qual empregou ressonância magnética para direcionar com precisão a administração da substância no local certo. Uma abordagem semelhante está atualmente em fase de teste em indivíduos adultos que sofrem de Parkinson e crianças portadoras de uma condição genética incomum denominada deficiência de descarboxilase de L-aminoácido aromático. Essa condição afeta o sistema nervoso e resulta em dificuldades motoras.


Resultados


O estudo, divulgado na revista Nature Medicine, revelou que os macacos passaram a expressar de forma contínua a dopamina em níveis elevados devido à ativação do gene GNDF. Isso resultou em uma redução significativa, de até 90%, no consumo subsequente de álcool. Por outro lado, os macacos que receberam uma variante inativa do gene mantiveram seus padrões de consumo de bebida. A pesquisadora explicou que nos animais que receberam a terapia GNDF, houve uma inibição dos níveis de dopamina, levando-os a consumir apenas de um a dois drinques por dia, em comparação com os oito a 10 drinques anteriores.


“Estamos entrando em uma era de terapia genética para distúrbios neurológicos e talvez distúrbios psiquiátricos, e acho que este estudo é muito promissor nessa direção”, disse a pesquisadora.

Grant enfatizou que é necessário realizar estudos em animais antes de poder-se testar a técnica em seres humanos. Além disso, dado que o procedimento de terapia genética implica em uma intervenção cirúrgica no cérebro e é de caráter irreversível, é certo que seja aplicado somente em casos mais severos de dependência alcoólica. Grant ressaltou que essa abordagem seria mais apropriada para indivíduos nos quais todas as outras modalidades terapêuticas foram ineficazes. Ela reforçou que a opção por uma terapia invasiva e irreversível não deve ser considerada senão quando a vida de alguém estiver realmente em risco


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