Projeções indicam que partidos de centro devem manter controle do parlamento europeu mesmo com avanço da ultradiereita
Mesmo com os ganhos da extrema direita enfraquecendo os governos na França e na Alemanha, a maioria no Parlamento Europeu continuará com os blocos formados por conservadores, liberais e social-democratas, após a votação que escolheu 720 novos eurodeputados.
As projeções do Parlamento Europeu são mostradas no edifício da União Europeia em Bruxelas, Bélgica, em 9 de junho de 2024 - - Foto Reprodução/Reuters/Piroschka van de Wouw
À medida que se aproximam as eleições para o Parlamento Europeu, as últimas projeções apontam que os partidos de centro devem continuar dominando a instituição, apesar do crescimento observado dos partidos de ultradireita em vários países do continente. De acordo com as projeções divulgadas no domingo (9), a votação para escolher 720 novos eurodeputados encerrou no último dia das eleições para o próximo mandato de cinco anos. A soma dos blocos formados por conservadores, liberais e social-democratas continuará com a maioria no Parlamento Europeu. No entanto, os resultados oficiais ainda não foram divulgados.
Cenário Atual e Projeções Eleitorais
O primeiro turno das eleições para o Parlamento Europeu estão marcadas para 30 de junho de 2024, e os partidos de centro-direita e centro-esquerda, tradicionalmente dominantes, estão se preparando para enfrentar um cenário eleitoral cada vez mais fragmentado. Pesquisas recentes indicam que, embora haja um avanço notável de partidos de extrema direita, como o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), o Rassemblement National da França e a Liga de Matteo Salvini na Itália, estes não devem conseguir conquistar a maioria necessária para assumir o controle do Parlamento. O segundo turno ocorrerá em 7 de julho.
Em geral, na União Europeia, os Democratas-Cristãos e os Socialistas permanecem como os principais grupos políticos pró-europeus. No entanto, a ultra direita tem avançado em detrimento dos Verdes, que devem perder cerca de 20 assentos e cair para a sexta posição. Durante muitas décadas, a ultra direita foi marginalizada na política da União Europeia. No entanto, com seu desempenho forte nessas eleições, ela poderá se tornar uma parte importante nas discussões sobre migração, segurança e clima.
O Partido Popular Europeu (PPE), de direita, continuaria sendo a força política principal, com 181 assentos; os social-democratas teriam 135 assentos e os liberais do Renew ficariam com 82 assentos. Juntos, eles formariam um grande bloco com 389 cadeiras. Prevê-se que os partidos de ultradireita obtenham maior influência em meio ao aumento do custo de vida e ao descontentamento dos agricultores. Além disso, as questões relacionadas às guerras em Gaza e na Ucrânia são de extrema importância para os eleitores.
Fatores Contribuintes para a Estabilidade do Centro
Diversos fatores contribuem para essa resiliência dos partidos de centro. Primeiramente, a preocupação com a estabilidade econômica e política continua sendo uma prioridade para muitos eleitores europeus. Partidos de centro são frequentemente percebidos como uma escolha segura e confiável para manter a ordem e a continuidade das políticas econômicas.
Além disso, a polarização política e a ascensão do populismo de direita têm levado a uma maior mobilização do eleitorado moderado. Muitos eleitores que podem não ter participado em eleições anteriores estão agora mais engajados, movidos pelo desejo de conter o avanço de movimentos que consideram radicais.
De acordo com Cas Mudde, um especialista em populismo e direita radical da Universidade da Geórgia, os resultados das eleições estiveram em consonância com as expectativas globalmente. Além disso, essas eleições refletem principalmente os desenvolvimentos que ocorreram a nível nacional. Mudde afirmou que esses desenvolvimentos incluíram governos em exercício altamente impopulares. O impacto principal dessas eleições provavelmente será sentido nas capitais nacionais, especialmente em Paris e Berlim, destacou Mudde.
Desafios para os Partidos de Centro
Os partidos de centro não estão isentos de desafios. A crescente insatisfação com a gestão de questões como imigração, segurança e identidade nacional tem alimentado o apoio aos partidos de extrema direita. Esses partidos prometem políticas mais rigorosas e são vistos por alguns eleitores como mais autênticos e menos comprometidos pelas complexidades do governo de coalizão. Além disso, o desgaste das políticas de austeridade implementadas durante as últimas crises econômicas ainda ressoa entre muitos eleitores, especialmente nos países do sul da Europa. Partidos de extrema direita têm explorado esses ressentimentos, prometendo políticas de alívio econômico e uma revisão das relações com a União Europeia.
Mujtaba Rahman, da consultoria Eusasia Group, afirmou que, apesar dos ganhos, as divisões e a desorganização entre os grupos de direita limitarão seu impacto na agenda política e da UE nos próximos cinco anos. Em conjunto com outros analistas, Rahman também declarou que, em questões específicas em que as posições políticas da extrema-direita são fortes e podem se alinhar com os objetivos do PPE de centro-direita, "alianças táticas de centro-direita" poderiam enfraquecer ou até mesmo inviabilizar as iniciativas da UE.
É provável que esses debates incluam questões específicas relacionadas à migração e à transição verde, com os eurodeputados de direita tentando limitar o impacto da legislação climática, principalmente nas empresas, famílias e indivíduos. Nessas áreas, e talvez em outras, o trabalho do parlamento pode se tornar mais complicado. A análise das votações na assembleia anterior realizada pelo EUobserver e pela Novaya Gazeta Europe mostrou que 69 das mais de 2.000 resoluções finais foram decididas por uma margem estreita.
O Papel dos Verdes e Liberais
Outro ponto importante a considerar é o papel dos partidos verdes e liberais. O grupo dos Verdes/Aliança Livre Europeia (Verdes/ALE) tem ganhado terreno, impulsionado por uma crescente preocupação com as mudanças climáticas e questões ambientais. Da mesma forma, a Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa (ALDE), agora conhecida como Renew Europe, continua a ser uma força significativa, especialmente em países como a França e os Países Baixos.
Esses partidos frequentemente atuam como kingmakers, capazes de formar coalizões tanto com a esquerda quanto com a direita centrista, e serão essenciais para a manutenção de um equilíbrio de poder que evite a dominação da extrema direita.
Como é a eleição na União Europeia?
A eleição na União Europeia é um processo democrático no qual os cidadãos dos Estados-Membros têm a oportunidade de eleger representantes para o Parlamento Europeu. Os eurodeputados são eleitos por cada nação, sendo a Alemanha o país com o maior número de cadeiras, com um total de 96, enquanto Malta e Luxemburgo possuem o menor número de cadeiras, com apenas seis cada um. Essa é considerada a segunda maior votação do mundo, atrás das eleições gerais da Índia.
Durante o período eleitoral, os candidatos apresentam suas propostas e os eleitores votam naqueles que consideram mais adequados para representá-los na tomada de decisões a nível europeu. Os resultados das eleições refletem a vontade dos cidadãos e são utilizados para formar o Parlamento Europeu, que tem como função legislar e fiscalizar as ações da Comissão Europeia.
Existem aproximadamente 450 milhões de habitantes nos países da União Europeia, sendo que apenas Bélgica, Bulgária, Luxemburgo e Grécia possuem voto obrigatório. Nos demais países, o voto é facultativo. O Parlamento Europeu é composto por 720 membros eleitos. As zonas de votação estão localizadas desde o Círculo Ártico até as fronteiras com a África e a Ásia. Há até mesmo votação no consulado de Portugal em São Paulo.
Durante muito tempo, o Parlamento Europeu foi ocupado por políticos veteranos em seus países e por aqueles que estavam no início de suas carreiras. A mudança começou a ocorrer devido às novas responsabilidades adquiridas pela União Europeia, como a tomada de decisões em relação às regras bancárias e agrícolas dos países do bloco, assim como o orçamento da União Europeia. Além disso, os eleitores passaram a demonstrar maior interesse, sendo que em 2019, a presença nas eleições foi considerada um sucesso, alcançando 50,66%. Para este ano, espera-se que mais de 60% das pessoas votem.




























