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Planeta em Ebulição: Oceanos alcançam cinco anos seguidos de aquecimento extremo, aponta estudo

14 de jan. de 2024
5 min de leitura

A pesquisa fornece evidências observacionais sólidas, apontando que, até 2023, os oceanos alcançaram suas temperaturas mais altas já registradas. Os pesquisadores expressam séria preocupação com o fato de que o recorde de aquecimento dos oceanos foi quebrado de maneira consecutiva nos últimos cinco anos.

A medição das temperaturas dos oceanos até 2.000 metros revelou um grande aumento no aquecimento em 2023 - Foto Reprodução/Internet




O aquecimento global é uma realidade inegável que impacta diretamente o nosso planeta. Um dos indicadores mais sensíveis a essas mudanças é a temperatura dos oceanos, que desempenha um papel crucial no equilíbrio climático e na saúde dos ecossistemas marinhos. Recentemente, cientistas anunciaram que os oceanos globais atingiram cinco anos consecutivos de aquecimento extremo, um fenômeno que possui implicações significativas para a vida na Terra.


Em 2023, os oceanos globais registraram a absorção de uma quantidade sem precedentes de calor, marcando um recorde desde o início dos registros, conforme revelado em um artigo divulgado no mês passado na revista britânica Nature. Essa constatação representa a mais recente atualização de um estudo anual conduzido pelo Instituto de Física Atmosférica (IAP) da Academia Chinesa de Ciências, sediado em Pequim. Os pesquisadores afirmam que, desde 2019, os oceanos têm experimentado um aquecimento constante a taxas recorde. O estudo envolveu a colaboração de 34 cientistas provenientes de 19 instituições de pesquisa em cinco países distintos.


O Aquecimento dos Oceanos: Uma Tendência Preocupante


O aumento da temperatura dos oceanos é uma tendência que tem sido observada nas últimas décadas, mas a constatação de cinco anos consecutivos de aquecimento extremo ressalta a urgência em lidar com as mudanças climáticas. Dados coletados por satélites, boias oceânicas e outros instrumentos indicam que a temperatura média da superfície dos oceanos tem aumentado em uma escala alarmante.


Cheng Lijing, oceanógrafo do IAP e autor principal do estudo, afirma que os resultados indicam o aumento contínuo de gases de efeito estufa causados pela atividade humana na atmosfera. Ele explica que os oceanos desempenham um papel crucial ao absorver 90% do excesso de calor do sistema terrestre. Enquanto os níveis de gases do efeito estufa permanecerem elevados na atmosfera, os oceanos continuarão a assimilar energia, resultando no aumento da temperatura nas águas oceânicas.


Ele denomina o calor contido nos oceanos como um "indicador particularmente robusto" das mudanças climáticas globais, pois é significativamente menos afetado pelas flutuações naturais do sistema terrestre em comparação com as temperaturas do ar e da superfície do mar. Cheng e seus colaboradores examinaram dois conjuntos de dados distintos sobre o conteúdo de calor dos oceanos: um proveniente do Instituto de Física Atmosférica (IAP) e outro dos Centros Nacionais de Informação Ambiental (NCEI) da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos.


Consequências para o Clima Global


Os oceanos desempenham um papel crucial na regulação do clima global. A absorção de dióxido de carbono (CO2) pelos oceanos ajuda a mitigar os efeitos das emissões humanas, mas esse processo também leva à acidificação da água do mar. O aquecimento extremo dos oceanos compromete essas funções reguladoras, podendo desencadear feedbacks climáticos negativos e agravar as mudanças climáticas em um ciclo vicioso.


Os dados do IAP indicam que, em comparação com 2022, o calor armazenado nos 2.000 metros superiores dos oceanos aumentou em 15 zetajoules (unidade para medir energia ou calor) em 2023. Essa quantidade é significativamente elevada; para contextualizar, o consumo total de energia global em 2022 foi de aproximadamente 0,6 zetajoules. O NCEI registra um aumento de 9 zetajoules para o mesmo período em 2023.


A disparidade entre esses dois valores resulta de métodos distintos de cálculo e controle de qualidade dos dados empregados por essas organizações (consulte 'Diferentes mas iguais'). Contudo, conforme destaca Tim Boyer, oceanógrafo do NCEI e colaborador do artigo, "o ponto crucial neste estudo e para a compreensão científica é que o oceano está consistentemente se aquecendo ano após ano, atingindo novos recordes nos níveis de conteúdo de calor oceânico".


Svetlana Jevrejeva, cientista especializada em níveis do mar no Centro Nacional de Oceanografia em Liverpool, Reino Unido, afirma que o estudo apresenta "evidências observacionais robustas" indicando que os oceanos atingiram suas temperaturas mais elevadas registradas até 2023. Ela expressa grande preocupação com o fato de que o recorde de aquecimento dos oceanos foi quebrado de forma consecutiva nos últimos cinco anos, considerando isso "muito alarmante". Jevrejeva destaca que mesmo pequenas alterações nos oceanos podem ter impactos significativos a longo prazo. Por exemplo, aproximadamente 50% do aumento atual no nível do mar é atribuído à expansão dos oceanos causada pelo aquecimento das águas.


A cientista ressalta que o aquecimento rápido dos oceanos pode levar à intensificação de fenômenos meteorológicos extremos. Isso ocorre porque os oceanos desempenham um papel fundamental na mediação dos padrões climáticos globais que influenciam diretamente eventos como chuvas, secas e inundações.


Impactos Diretos na Vida Marinha


O aquecimento extremo dos oceanos tem repercussões diretas sobre a vida marinha. Muitas espécies de peixes, corais e outros organismos marinhos são altamente sensíveis às variações de temperatura. O aumento da temperatura pode levar à descoloração dos corais, morte de recifes, deslocamento de espécies marinhas e alterações nos padrões de migração de animais aquáticos. Isso não apenas afeta a biodiversidade marinha, mas também prejudica as comunidades que dependem da pesca para subsistência e economia.


William Cheung, ecologista marinho da Universidade da Colúmbia Britânica em Vancouver, Canadá, argumenta que o aquecimento dos oceanos pode provocar alterações na distribuição da vida marinha. Isso resultaria no deslocamento de algumas espécies para regiões polares ou águas mais profundas. Além disso, um oceano mais quente teria o potencial de influenciar os eventos biológicos, como migração e ciclos reprodutivos, enquanto também impactaria o tamanho corporal das criaturas marinhas, conforme apontado por Cheung.


Riscos para Comunidades Costeiras


Além dos impactos ambientais, o aquecimento dos oceanos representa uma ameaça direta para comunidades costeiras em todo o mundo. A elevação do nível do mar, associada ao derretimento das calotas polares e ao aumento da temperatura dos oceanos, pode resultar em inundações costeiras mais frequentes e intensas. Isso coloca em risco infraestruturas, habitats naturais e milhões de pessoas que habitam regiões litorâneas.


A Necessidade de Ações Imediatas


Diante desse cenário crítico, a necessidade de ações imediatas e coordenadas torna-se ainda mais premente. Reduzir as emissões de gases de efeito estufa, promover práticas sustentáveis de pesca, proteger e restaurar ecossistemas marinhos e investir em fontes de energia renovável são passos cruciais para reverter a trajetória do aquecimento global e preservar a saúde dos oceanos.


Christina Hulbe, glaciologista da Universidade de Otago em Dunedin, Nova Zelândia, argumenta que enquanto a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera continuar a aumentar, tanto a atmosfera quanto o oceano continuarão a se aquecer. No entanto, há um "lado positivo": se agirmos coletivamente para reduzir as emissões o suficiente e permitir um declínio na concentração de gases de efeito estufa, a tendência de aquecimento pode ser revertida. Ela adverte que, à medida que os seres humanos produzem mais gases de efeito estufa, aumenta a probabilidade de desencadear pontos críticos no sistema climático.


“Não sabemos se esses limites já foram ultrapassados”, diz ela, “e é urgentemente importante parar o aquecimento antes que isso aconteça”, complementou.

Uma Chamada para a Ação Global


O aquecimento extremo dos oceanos não é apenas um sinal de alerta, mas uma urgente chamada para a ação global. O comprometimento com estratégias de mitigação e adaptação é essencial para garantir um futuro sustentável para o nosso planeta. À medida que os oceanos continuam a aquecer, a responsabilidade recai sobre a comunidade global para implementar medidas significativas que protejam os ecossistemas marinhos, sustentem as comunidades costeiras e promovam um ambiente saudável para as gerações futuras.


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