Pilotos da Voepass detectaram falha no sistema antigelo no início do voo e relataram 'bastante gelo' antes da queda, revela relatório preliminar do Cenipa
O relatório preliminar do CNIPA revelou que os pilotos da Voepass identificaram uma falha no sistema antigelo da aeronave logo no início do voo. O documento final ainda não tem data prevista para divulgação.
Apresentação do Cenipa sobre o Relatório Preliminar do Acidente com o Avião da Voepass em Vinhedo - Foto Reprodução / Luiz Felipe Barbiéri / g1
O relatório preliminar divulgado nesta sexta-feira (06) pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão vinculado à Força Aérea Brasileira (FAB), revelou que os pilotos da Voepass detectaram uma falha no sistema antigelo da aeronave logo no início do voo que resultou na queda da aeronave no mês passado em Vinhedo (SP). O relatório detalha que a tripulação relatou a presença de "bastante gelo" pouco antes do acidente, sugerindo que o acúmulo de gelo possa ter desempenhado um papel crucial no incidente.
Falha no Sistema Antigelo e Acúmulo de Gelo
De acordo o Brigadeiro do Ar Marcelo Moreno, chefe da Seção de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, no voo da Voepass que resultou na morte de 62 pessoas, uma conversa extraída do cockpit indicava que um dos tripulantes mencionou uma falha no sistema de De-Icing (antigelo). No entanto, essa falha não foi confirmada pelos dados do gravador de dados de voo (FDR).
O tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, também do Cenipa, ressaltou que os tripulantes discutiram possíveis falhas no sistema de "boots" das asas, que serve para quebrar o gelo. Dois minutos antes do acidente, o copiloto mencionou a presença de "bastante gelo". Segundo Fróes, houve duas menções ao gelo nas gravações de voz: em uma, o piloto menciona uma falha no sistema de anti-gelo do avião; na outra, o copiloto relata "bastante gelo". Essas observações ocorreram durante o voo de 1 hora e 10 minutos.
A investigação do Cenipa revelou que o sistema antigelo do avião foi ativado várias vezes pelos pilotos durante o voo. No entanto, em um determinado momento, a aeronave voou por seis minutos com um aviso de gelo, sem que o sistema de degelo fosse acionado. Especialistas civis, logo após o acidente, sugeriram que a formação de gelo poderia ter contribuído para a queda. O Cenipa confirmou que o avião realmente atravessou uma área de gelo severo e que os registros de manutenção indicavam que a aeronave estava apta a operar nessas condições.
Causas do Acidente Ainda Sob Investigação
Embora o relatório preliminar do Cenipa aponte para uma possível relação entre a falha do sistema antigelo e o acidente, a investigação ainda está em andamento. O relatório do Cenipa ainda não determina a causa do acidente. O tenente-coronel explicou que, por ora, o órgão se concentrou na análise dos fatos objetivos relacionados ao voo. Não é possível afirmar que uma falha tenha causado a queda. Segundo o Cenipa, os pilotos não relataram nenhuma emergência durante o voo.
O Cenipa ressaltou que o relatório preliminar é apenas uma análise inicial dos dados coletados e que o relatório final, que trará as conclusões definitivas e possíveis recomendações para evitar acidentes semelhantes no futuro, deve ser divulgado em uma data posterior. O Cenipa informou que os dados levantados até o momento indicam que o sistema antigelo do avião foi ativado e desativado várias vezes durante o voo. O órgão ainda não pode determinar se essas ações foram realizadas pela tripulação ou se houve outra condição que desativava o mecanismo.
De acordo com o Cenipa, nenhuma hipótese foi descartada até agora. O sistema era desativado por meio de um botão, e a investigação ainda não revela se a tripulação o desligou ou se havia uma outra causa para a desativação. O Cenipa informou que o avião tinha os registros de manutenção atualizados. No entanto, isso não garante que as manutenções foram realizadas com a devida qualidade; essa questão ainda será investigada.
De acordo com o tenente-coronel Carlos Henrique Baldin, os registros de manutenção estavam em ordem, mas a efetividade das manutenções será analisada mais detalhadamente. No início da apresentação, o Cenipa confirmou que o avião possuía as licenças necessárias para voar. Fróes também afirmou que os registros técnicos de manutenção estavam atualizados. A equipe de investigação revisou os registros técnicos nos dias anteriores ao acidente e confirmou que estavam atualizados, conforme os documentos.
A aeronave estava certificada para voos em condições de gelo e foi considerada 'aeronavegável' pelos investigadores. Segundo o relatório, os pilotos tinham treinamento específico para voos em condições de gelo, realizado em simuladores. Era previsto que o avião enfrentaria uma zona de formação de gelo em sua rota, com expectativa de gelo severo entre 12 mil e 21 mil pés. Essas informações meteorológicas estavam disponíveis na internet", afirmou Fróes.
O avião voava sem o 'Pack de número 1'"
Foi verificado que, nos registros de manutenção anteriores ao voo do dia 9, o item Pack de número 1 estava inoperante. Este item faz parte do sistema pneumático responsável por fornecer ar pressurizado ao Pack. A principal função desse sistema é a pressurização da cabine, regulando o fluxo de ar para os passageiros e a tripulação. Além disso, o Pack também contribui para a climatização da aeronave. Com um Pack inoperante, a aeronave deve operar a um máximo de 17 mil pés, o que foi observado no voo. Além disso, o cálculo do combustível deve ser baseado em uma altitude de 10 mil pés, em vez dos 17 mil pés, o que também foi corretamente realizado.
De acordo com o chefe do Cenipa, brigadeiro Marcelo Moreno, o relatório preliminar não tem a intenção de atribuir culpas ou responsabilidade criminal. Seu objetivo é identificar possíveis fatores que possam ter contribuído para o acidente e sugerir medidas de segurança. O relatório se baseia exclusivamente nos fatos relacionados ao acidente e não explora as causas ou os detalhes do ocorrido. Apenas os dados factuais serão apresentados, conforme afirmou o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, o investigador responsável pelo acidente com o avião da VoePass.
Familiares e Relatório Final
Cerca de 70 representantes, entre familiares e advogados das vítimas, viajaram à capital federal para obter informações sobre o caso. Antes da coletiva de imprensa, foram recebidos pela equipe do Cenipa. O acidente ocorreu no dia 9 de agosto com uma aeronave ATR 72-500, que realizava o voo 2283 entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP). O avião caiu em Vinhedo (SP), a aproximadamente 115 km do destino. Todas as 62 pessoas a bordo, incluindo passageiros e tripulantes, faleceram.
Participam da coletiva o chefe do Cenipa, brigadeiro Marcelo Moreno; o chefe da divisão de Investigação e Prevenção do órgão, coronel Henrique Baldin; e o investigador encarregado, tenente-coronel Paulo Mendes Fróes.


























