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Medicamento contra a malária que Trump e Bolsonaro elogiou como a cura da Covid aumentou a chance de morte, diz estudo

12 de jan. de 2024
5 min de leitura

O estudo calculou que houve aumento de 11% na mortalidade associada a casos envolvendo o uso de hidroxicloroquina. A pesquisa foi realizada com dados de pacientes da Bélgica, França, Itália, Espanha, Estados Unidos e Turquia.

Comprimidos de cloroquina produzidos no Laboratório Químico Farmacêutico do Exército brasileiro - Foto Reprodução




O medicamento utilizado no tratamento da malária, a hidroxicloroquina (HCQ), ganhou notoriedade em 2020 quando líderes como o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, o elogiaram como uma potencial cura para a SARS-CoV-2 (COVID-19). No entanto, um estudo publicado recentemente, trouxe à tona preocupações sérias sobre a segurança deste medicamento quando utilizado no contexto da pandemia.


De acordo a pesquisa científica, as pessoas que faziam uso do medicamento tinham 11% mais probabilidade de morrer do vírus. Os pesquisadores que conduziram o estudo e compartilharam suas conclusões na revista Biomedicine & Pharmacotherapy, também calcularam que cerca de 17.000 indivíduos em seis nações distintas, incluindo os Estados Unidos, onde após contrair a Covid-19 e fazer uso da substância antimalárica hidroxicloroquina faleceram cerca de 7,5 mil pessoas. A revista que tem sido editada por DM Townsend ao longo de seus 67 anos de existência, vinculada à Universidade Médica da Carolina do Sul, EUA.


Medicação


A hidroxicloroquina, um medicamento antimalárico, derivado da cloroquina, que apresenta propriedades imunomoduladoras, anti-inflamatórias, antibacterianas e antivirais, além do baixo custo e com um perfil bom de segurança, permitindo sua utilização em crianças, gestantes e lactantes, sem suprimir o sistema imunológico. No entanto, é imperativo realizar exames regulares para monitorar a possível ocorrência de retinopatia, um efeito adverso preocupante associado à droga.


Amplamente empregada na dermatologia, o medicamento demonstra eficácia em diversas condições, como lúpus eritematoso, onde é uma terapia de primeira linha, e em várias doenças autoimunes/inflamatórias, como líquen plano, erupção polimórfica à luz, porfiria cutânea tardia, granuloma anular e sarcoidose. Uma das toxicidades mais temidas do medicamento é a retiniana, observada em 7,5% dos pacientes, embora seja extremamente rara durante os primeiros 5 anos de tratamento. Doses maiores de 5 mg/kg de peso real/dia e uma duração superior aos 10 anos de tratamento são associadas a um aumento da taxa de retinopatia .


Os efeitos adversos gastrointestinais são relativamente frequentes e incluem anorexia, pirose, diarréia e distensão abdominal . Os efeitos adversos cutâneos mais frequentes são: erupção cutânea, hiperpigmentação e prurido, que podem provocar fotossensibilidade. Outras toxicidades infrequentes incluem as cardíacas, musculares e hematológicas. Em 2020, a prescrição generalizada da HCQ para prevenção e tratamento da COVID-19, causada pelo SARS-CoV-2, resultou em escassez significativa e, em alguns casos, esgotamento total dos estoques. No entanto, análises recentes concluíram que a hidroxicloroquina é ineficaz contra a COVID-19, desaconselhando seu uso.


Indicação na Pandemia


Em meados de 2020, a hidroxicloroquina se tornou alvo de intensos debates e controvérsias. Alguns líderes políticos no mundo expressaram otimismo em relação à droga, contribuindo para uma onda de interesse global na substância como uma possível solução para a pandemia de Covid-19. Os médicos que receitaram o medicamento durante o pico das restrições de atividades destinadas a conter a propagação da Covid-19 o fizeram fora das indicações aprovadas e sem evidências substanciais de benefício clínico, conforme indicado pelos autores do recente estudo.


O Estudo


Uma análise conjunta de ensaios randomizados forneceu as conclusões do um estudo publicado. Os pesquisadores relataram ter utilizado bases de dados públicas para determinar o número de pacientes com Covid-19 que foram hospitalizados nos estágios iniciais da pandemia. Em sua abordagem sistemática, examinaram 44 estudos de coorte, chegando à conclusão de que houve um aumento de 11% na taxa de mortalidade associada a casos em que a hidroxicloroquina foi utilizada. Este aumento foi relacionado a cerca de 16.990 óbitos hospitalares nos Estados Unidos, Bélgica, França, Itália, Espanha e Turquia.


Metodologia


Os autores do estudo estimaram que a taxa de mortalidade hospitalar global atribuível ao uso de HCQ ao combinar a taxa de mortalidade, a exposição ao HCQ, o número de pacientes hospitalizados e o aumento do risco relativo de morte associado ao HCQ. Calculamos a taxa de mortalidade em pacientes hospitalizados para cada país usando uma prevalência agrupada estimada por meio de uma meta-análise de coortes publicadas. A exposição ao HCQ foi estimada utilizando tanto as estimativas medianas quanto as extremas de uma revisão sistemática. Extraímos o número de pacientes hospitalizados durante a primeira onda de bases de dados dedicadas. A revisão sistemática englobou 44 estudos de coorte.


As taxas de prescrição de HCQ variaram consideravelmente de um país para outro, com uma variação de 16% a 84%. Utilizando as estimativas medianas do uso de HCQ em cada país, estimamos que ocorreram 16.990 mortes hospitalares relacionadas ao HCQ nos países com dados disponíveis, com uma variação de 6.267 a 19.256. O número médio de mortes relacionadas ao HCQ na Bélgica, Turquia, França, Itália, Espanha e EUA foi, respectivamente, 240 (intervalo não estimável), 95 (intervalo 92-128), 199 (intervalo não estimável), 1.822 (intervalo 1.170-2.063), 1.895 (intervalo 1.475–2.094) e 12.739 (intervalo 3.244–15.570).


Resultados


Os resultados do estudo mostraram que os pacientes que receberam hidroxicloroquina tiveram uma taxa de mortalidade significativamente maior em comparação com aqueles que não foram tratados com o medicamento. Além disso, os pesquisadores observaram efeitos colaterais graves associados ao uso da droga, aumentando ainda mais as preocupações sobre sua segurança.


As observações acerca da medicação antimalárica resultaram em um aumento nas prescrições deste medicamento. A Food and Drug Administration, que só aprovou a primeira vacina contra a Covid-19 em dezembro de 2020, viu-se obrigada a emitir um alerta de que a HCQ pode ocasionar batimentos cardíacos irregulares e outros problemas cardíacos. Os pesquisadores ainda citam um estudo de colegas brasileiros que relaciona a medicação a efeitos colaterais no coração e no fígado.


O principal resultado foi o número estimado de mortes excessivas entre pacientes hospitalizados pela COVID-19 durante a primeira onda da pandemia atribuível à HCQ em todo o mundo, afirma o estudo publicado.

Segundo a pesquisa, a toxicidade da HCQ em pacientes com COVID-19 está em parte associada a efeitos colaterais cardíacos, incluindo distúrbios de condução, como taquicardia, fibrilação ventricular e prolongamento do intervalo. No estudo RECOVERY, o risco de arritmia cardíaca grave relacionada ao medicamento em pacientes com COVID-19 foi de 8,2%, em comparação com 6,3% no grupo de tratamento padrão, com um aumento de 0,4% no risco de morte por causas cardíacas.


O aumento do risco de morte por causas cardíacas no RECOVERY representa a metade do aumento da mortalidade por todas as causas, sugerindo que as mortes relacionadas à HCQ também podem ter origens não cardíacas. Em um ensaio conduzido no Brasil, que testou a hidroxicloroquina com ou sem azitromicina, foi observado um aumento nos efeitos colaterais hepáticos e cardíacos, principalmente manifestados pelo prolongamento do intervalo.


Apesar da imprecisão inerente às estimativas, o estudo conclui que esses resultados destacam o perigo associado ao uso de medicamentos com evidências de baixo nível, quando reaproveitados. A agência reguladora também esclareceu que o medicamento foi aprovado apenas para tratar malária, lúpus e artrite reumatoide.


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