Ex-presidente sob investigação no caso das joias; Entenda os crimes pelos quais Bolsonaro foi indiciado e os próximos passos
A PF indiciou o ex-presidente pelos crimes de peculato, associação criminosa e lavagem de dinheiro relacionados à venda ilegal de joias da Presidência da República. Se for considerado culpado por todos esses delitos, Bolsonaro pode ser sentenciado a uma pena que vai de 10 a 32 anos de prisão.
Bolsonaro é acusado de apropriação indevida de joias que recebeu como presente durante seu mandato como presidente - Foto Reprodução/Valter Campanato/Agência Brasil
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) está sob investigação em um escândalo que envolve a apropriação indevida de joias de alto valor recebidas como presente durante seu mandato como presidente do Brasil. Na quinta-feira (4), a Polícia Federal concluiu sua investigação e indiciou Jair Bolsonaro, junto com outras 11 pessoas, incluindo Mauro César Barbosa Cid, tenente-coronel e considerado braço-direito do ex-presidente durante seu mandato, bem como dois ex-ministros: Fabio Wajngarten, ex-chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom), e Bento Albuquerque, ex-ministro de Minas e Energia, além do advogado Frederick Wassef.
Eles são acusados dos crimes de lavagem de dinheiro, associação criminosa e peculato. As acusações, cujas penas somadas podem chegar a 25 anos de prisão, foram formalmente apresentadas.
Contexto do Caso
O caso das joias começou a ganhar notoriedade quando foi revelado que Bolsonaro teria recebido joias valiosas durante o seu mandato presidencial. Essas joias, foram presentes do governo Arábia Saudita, não foram devidamente declaradas como patrimônio do Estado, conforme exigido por lei e foram incorporadas ao patrimônio pessoal do ex-presidente, levantando suspeitas de irregularidades.
As investigações revelaram que parte dessas joias foi negociada nos Estados Unidos. Após a divulgação do caso, aliados de Bolsonaro tentaram recomprar as joias e devolvê-las ao governo brasileiro. Entre os presentes recebidos por Bolsonaro durante seu mandato, estavam itens valiosos, como um relógio Rolex de ouro branco, um anel, abotoaduras e um rosário islâmico.
Crimes pelos Quais Bolsonaro Foi Indiciado
Associação Criminosa: Bolsonaro está sendo acusado deste crime porque foi detectado em seu círculo próximo, o desvio de joias, relógios, esculturas e outros artigos de luxo que ele recebeu enquanto representante do Estado brasileiro. O crime de associação criminosa ocorre quando três ou mais pessoas se agrupam com o objetivo específico de cometer crimes. Esse delito está tipificado no artigo 288 do Código Penal brasileiro e é regulamentado pela lei 12.850 de 2013, que estabelece pena de reclusão de 1 a 3 anos.
Lavagem de Dinheiro: O ex-presidente também enfrenta acusações de lavagem de dinheiro, que envolvem a tentativa de ocultar a origem ilícita dos bens adquiridos. Neste caso, as joias teriam sido integradas ao patrimônio de Bolsonaro sem a devida declaração, buscando dissimular sua procedência. Em outras palavras, trata-se da ocultação ou dissimulação da natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens provenientes de crime. A pena prevista é de reclusão de 3 a 10 anos, além de multa.
Peculato: Outro crime pelo qual Bolsonaro foi indiciado é o peculato, que se refere ao desvio ou apropriação de bens públicos por um funcionário público. A posse das joias sem a devida declaração e incorporação ao acervo público pode configurar esse crime. Pena: reclusão de 2 a 12 anos e multa.
O indiciamento indica que a Polícia Federal reuniu evidências suficientes de um crime. Agora, cabe ao Ministério Público decidir se apresentará uma denúncia formal. Somente se a Justiça aceitar a denúncia, Bolsonaro e os outros indiciados se tornarão réus.
Investigação e Provas
A investigação tem sido conduzida por diferentes órgãos, incluindo a Polícia Federal e o Ministério Público Federal. Diversas provas foram reunidas, como registros de transações financeiras, testemunhos e documentos que comprovam a aquisição e posse das joias. Uma das peças-chave da investigação é a falta de declaração das joias como presentes oficiais, o que deveria ter sido feito de acordo com a legislação brasileira.
Segundo as investigações, colaboradores do ex-presidente foram responsáveis por vender ou tentar vender, com o seu consentimento, quatro presentes de alto valor que ele recebeu em viagens oficiais ao exterior. Duas joias foram presenteadas pela Arábia Saudita e outras duas pelo Bahrein. Entre os itens negociados estão relógios das marcas Rolex e Patek Philippe, destinados à empresa Precision Watches, com um valor total de US$ 68 mil, equivalente, na cotação da época, a R$ 346.983,60.
De acordo com as investigações, o ex-ajudante de ordens compareceu pessoalmente a uma loja em Willow Grove para vender a peça. Uma foto do comprovante de depósito foi encontrada no celular do oficial, e outra imagem mostra seu pai refletido em outro item. Durante seu depoimento sobre o assunto, Bolsonaro optou por manter-se em silêncio. Em ocasiões anteriores, ele negou ter ordenado a venda das joias, afirmou não ter solicitado nem recebido presentes e reiterou que não houve qualquer violação da lei.
Próximos Passos no Processo
O relatório final contendo as conclusões da Polícia Federal será encaminhado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, que é o relator do caso. Posteriormente, Moraes encaminhará o processo à Procuradoria-Geral da República (PGR), responsável por analisar se há provas suficientes para formular uma acusação formal contra Jair Bolsonaro e os demais indiciados. A PGR poderá então apresentar uma denúncia formal à Justiça, arquivar o caso ou solicitar novas diligências.
Caso a denúncia seja aceita pelo STF, os indiciados se tornarão réus e enfrentarão processos criminais perante o tribunal. A próxima etapa incluirá a coleta de provas, depoimentos e interrogatórios, culminando em um julgamento final no qual os ministros decidirão sobre a condenação ou absolvição dos réus.
Defesas
Paulo Cunha Bueno, advogado de Bolsonaro, informou que ainda não teve acesso ao relatório da PF e não fará comentários neste momento. Bolsonaro sempre negou qualquer irregularidade. Fábio Wajngarten, indiciado por lavagem de dinheiro e associação criminosa, afirmou que agiu dentro das suas prerrogativas profissionais e considera a acusação injusta. Frederick Wassef declarou que seu indiciamento é uma represália por seu apoio a Bolsonaro, refutando qualquer envolvimento ilícito. O advogado do tenente-coronel Mauro Cid afirmou que seu cliente está colaborando com as investigações e que o indiciamento faz parte do processo em curso.
Possíveis Consequências
Se condenado, Bolsonaro e os outros acusados poderão enfrentar penas que variam desde multas e perda de direitos políticos até a prisão. As penas dependem da gravidade dos crimes e das circunstâncias em que foram cometidos. A legislação penal determina que as condenações devem iniciar pela pena mínima dos crimes julgados, podendo ser aumentadas com base em circunstâncias agravantes específicas que pioram a situação jurídica do ex-presidente.
É importante destacar que uma possível condenação no caso das joias pode resultar na prolongação da inelegibilidade de Bolsonaro por um período superior ao definido inicialmente em outras ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), conforme estabelece a Lei Complementar 64/1990, conhecida como Lei das Inelegibilidades. De acordo com essa lei, essa norma se aplica a quem for condenado por decisão transitada em julgado ou proferida por órgão judicial colegiado, estendendo-se até oito anos após o cumprimento da pena.


























