Ex-CEO das Lojas Americanas é alvo de operação da PF por fraude bilionária de R$ 25 bilhões
Dois mandados de prisão preventiva e quinze de busca e apreensão foram executados por agentes. Durante as investigações de fraude, ocultação de dívidas e falsificação de contratos, o ex-executivo decidiu evitar entrevistas e mudou-se para a Espanha.
Miguel Gutierrez, ex-CEO da Americanas - Foto Reprodução/ YouTube
A Polícia Federal (PF) desencadeou uma operação de grande envergadura na manhã desta quinta-feira (27) para investigar uma suposta fraude contábil que teria gerado um rombo de R$ 25 bilhões nas Lojas Americanas, uma das maiores redes de varejo do Brasil. Entre os alvos da operação está o ex-CEO da companhia, Miguel Gutierrez, que é suspeito de ter orquestrado um esquema que envolvia manipulação de balanços financeiros e ocultação de passivos e Anna Christina Ramos Saicali, uma de suas diretoras.
Agentes da Polícia Federal também foram acionados para cumprir mandados de busca e apreensão contra outros ex-executivos do grupo. Miguel e Anna Christina encontram-se atualmente fora do país. Ambos serão adicionados à Difusão Vermelha da Interpol, que é uma lista composta pelos indivíduos mais procurados globalmente.
O Escândalo Financeiro
Segundo a Polícia Federal, a fraude adulterou os resultados financeiros do conglomerado para aparentar um aumento fictício de caixa, valorizando artificialmente as ações da Americanas na bolsa. Com esses números manipulados, os executivos recebiam bônus milionários por desempenho e lucravam ao vender as ações inflacionadas no mercado financeiro. A operação é resultado de uma investigação iniciada em janeiro de 2023, após a empresa ter comunicado, por meio de um fato relevante, a existência de "numerosas inconsistências contábeis" e um déficit patrimonial inicialmente estimado em R$ 20 bilhões. Posteriormente, a Americanas revelou que a dívida chegava a R$ 43 bilhões.
Foram identificados diversos crimes, incluindo manipulação de mercado, uso de informação privilegiada (insider trading), associação criminosa e lavagem de dinheiro. Se condenados, os envolvidos podem enfrentar penas de até 26 anos de prisão.
Operação "Disclosure"
Denominada "Disclosure", a ação da PF contou com a colaboração de procuradores do Ministério Público Federal (MPF) e representantes da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A atual administração do Grupo Americanas também cooperou, fornecendo informações da empresa. A expressão "Disclosure", utilizada pela Polícia Federal para nomear a operação, refere-se ao fornecimento de informações a todos os interessados na situação de uma companhia no mercado de capitais. Essa prática está diretamente ligada à exigência de transparência por parte das empresas de capital aberto.
Cerca de 80 policiais federais realizaram uma operação nesta quinta-feira que incluiu dois mandados de prisão preventiva e 15 mandados de busca e apreensão nas residências dos ex-diretores das Americanas, situadas no Rio de Janeiro. Entre os alvos estão Anna Christina Soteto, Carlos Eduardo Padilha, Fabien Picavet, Fabio Abrate, Jean Pierre Ferreira, João Guerra Duarte Neto, José Timotheo de Barros, Luiz Augusto Henriques, Marcio Cruz Meirelles, Maria Christina Do Nascimento, Murilo dos Santos Correa e Raoni Lapagesse Franco.
A PF não revelou os nomes dos alvos desta operação de quinta-feira. A investigação contou com o apoio técnico da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A Justiça Federal determinou o bloqueio de bens e valores dos ex-diretores, totalizando mais de meio bilhão de reais. Os mandados foram emitidos pela 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro.
A Participação de Miguel Gutierrez e Anna Saicali
Miguel Gutierrez, ex-CEO da Americanas por duas décadas, tornou-se a primeira alta figura da empresa a enfrentar consequências legais de uma investigação em curso. A polícia emitiu mandados de busca e prisão preventiva contra Gutierrez, que possui cidadania brasileira e espanhola e encontra-se atualmente foragido. Anna Saicali, ex-diretora da empresa, também recebeu ordem de prisão e deixou o Brasil. Gutierrez ingressou no grupo Americanas em 1993, inicialmente na área financeira, e ascendeu a CEO dez anos depois. Ele renunciou ao cargo em dezembro de 2022, quando Sergio Rial assumiu o posto e revelou um déficit bilionário na varejista.
Em janeiro de 2023, um escândalo de fraude contábil abalou a Americanas e comprometeu a reputação de seus bilionários acionistas. Diante das investigações brasileiras em curso, Gutierrez, natural do Rio de Janeiro, optou por se mudar para a Espanha. Um inquérito interno identificou Gutierrez como o líder do esquema que levou a varejista brasileira, com 95 anos de história, à recuperação judicial, resultando na demissão de 5 mil funcionários. Uma investigação conduzida pelo Congresso revelou documentos do comitê independente contratado pela Americanas, sugerindo que Gutierrez e membros de sua equipe executiva falsificaram contratos publicitários e ocultaram financiamentos na cadeia de abastecimento, com o objetivo de reduzir a dívida da empresa e aumentar os lucros.
Os investigadores da Polícia Federal, do Ministério Público e do comitê interno colaboraram na investigação para desvendar o funcionamento interno do suposto esquema. Dois executivos seniores firmaram acordos judiciais e se comprometeram a cooperar com as autoridades. Gutierrez e antigos diretores da varejista são acusados de participação na fraude bilionária que levou a empresa a entrar com pedido de recuperação judicial.
O ex-executivo está sendo investigado por falsificação de contratos e ocultação de dívidas, mas nega as acusações. A Americanas está atualmente em processo de reestruturação de uma dívida de R$ 42,5 bilhões e planeja recuperar sua lucratividade até 2025, com apoio financeiro dos bilionários da 3G Capital: Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Sicupira.


























