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Crise na Bolívia: Militares tentam golpe de estado e invadem palácio presidencial, mas ação é rapidamente desmobilizada

26 de jun. de 2024
5 min de leitura
A tentativa de golpe de estado foi liderada por um ex-comandante do Exército, que havia sido afastado por ameaçar o ex-presidente Evo Morales. Em resposta, o presidente da Bolívia, Luis Arce, fez um pronunciamento no qual destituiu os chefes das Forças Armadas. O novo comandante militar ordenou a desmobilização de tanques e militares.

Uma mulher escapou do gás lacrimogêneo disparado pelas tropas militares em frente ao Palácio Quemado, localizado em La Paz, Bolívia, nesta quarta-feira - Foto Reprodução/Aizar Raldes/AFP/Getty Images





Nesta quarta-feira (26), a Bolívia testemunhou momentos de alta tensão política, após militares bolivianos tentaram um golpe de Estado liderada pelo ex-comandante do Exército do país. O palácio presidencial em La Paz, que atualmente é utilizado para eventos protocolares, chegou a ser invadido por tanques do Exército e militares armados. A ação foi rápida e enérgica, mas foi prontamente desmobilizada pelas forças leais ao governo constitucional.


Até o momento, sabe-se que o presidente da Bolívia, Luis Arce, e o ex-presidente Evo Morales mencionaram um possível golpe de Estado. Em um comunicado nas redes sociais, Arce também fez um apelo pelo respeito à democracia. Houve relatos de que unidades do Exército se reuniram em praças e ruas da capital. Segundo testemunhas da agência de notícias Reuters, um tanque do Exército foi avistado entrando no palácio presidencial em La Paz. Arce declarou hoje que as Forças Armadas bolivianas estão realizando "mobilizações irregulares".


O Contexto Político


Nos últimos cinco anos, a Bolívia enfrentou períodos conturbados na sua política. Em 2019, o terceiro mandato de Evo Morales foi abruptamente interrompido por um golpe de estado, desencadeado por um movimento de protesto e greves que envolveram setores populares, de classe média e empresariais. Evo, recém-eleito no primeiro turno das eleições presidenciais de outubro para um quarto mandato sem respaldo institucional adequado, renunciou à presidência e deixou o país.


Após a saída de Morales, Jeanine Áñez se autoproclamou presidente interina da Bolívia. Ela e apoiadores do golpe foram presos em 2021, incluindo o ex-comandante do Exército boliviano Jorge Pastor Mendieta Ferrufino, líder do golpe de 2019, segundo a Agência Boliviana de Informação. Em 2008, houve outra tentativa de golpe que fracassou. O governo boliviano denunciou um "golpe civil" iniciado pela oposição conservadora de Santa Cruz, mas descartou decretar estado de sítio para aliviar a tensão política.


Arce e Evo Morales, que eram aliados, agora são adversários devido às eleições presidenciais de 2025. Morales será o candidato do MAS, a legenda governista da qual ele é líder. Arce foi afastado pelo MAS por se recusar a participar do congresso realizado entre terça e quinta-feira em Cochabamba.


A Tentativa de Golpe


O governo afirmou que a tentativa de golpe foi liderada pelo general Juan José Zuñiga, que foi destituído do cargo de comandante do Exército devido a ameaças feitas ao ex-presidente Evo Morales, incluindo a promessa de prendê-lo caso retornasse ao poder. Após aproximadamente quatro horas de tensões, que incluíram uma confrontação direta entre o presidente Luis Arce e Zuñiga, o movimento foi desfeito por ordem do próprio presidente, e os militares se retiraram do local. No comunicado, Luis Arce anunciou a remoção do general e dos comandantes da Marinha e da Aeronáutica, designando novos líderes para as forças e instruindo a desmobilização das tropas.


Zuñiga, figura controversa, estava em conflito com o governo nos últimos meses. Na segunda-feira (24), suas declarações ganharam intensidade quando afirmou que prenderia Evo Morales, candidato nas próximas eleições, caso fosse eleito novamente. Na terça-feira (25), senadores anunciaram um processo judicial contra o ex-comandante do Exército. O presidente demitiu os outros dois comandantes das Forças Armadas.


Segundo a agência de notícias Reuters, o novo comandante ordenou a retirada das tropas, resultando na saída dos tanques do palácio presidencial e da praça Murillo, em frente ao palácio. Zuñiga, presente na praça Murillo, declarou às emissoras locais que esse movimento visava "restaurar a democracia" na Bolívia e libertar prisioneiros políticos. Após a invasão, Arce enfrentou Zuñiga diretamente na entrada do palácio presidencial. Durante a discussão, o presidente ordenou que o ex-comandante do Exército desmobilizasse suas tropas. Além disso, a Suprema Corte da Bolívia condenou veementemente a tentativa de golpe e exortou a comunidade internacional a manter-se vigilante e apoiar a democracia na Bolívia.


O ex-presidente da Bolívia Evo Morales, que rompeu com Luis Arce no ano passado, embora ambos façam parte do mesmo movimento político, afirmou que o atual acontecimento se trata de um golpe de Estado. Morales acusou um regimento do Exército de posicionar franco-atiradores numa praça de La Paz e responsabilizou o general Juan José Zuñiga pela mobilização. Ele convocou uma mobilização nacional em defesa da democracia contra o que descreve como um golpe de Estado tramado pelo general Zuñiga, enfatizando que não permitirá que as Forças Armadas violem a democracia nem amedrontem o povo.


Em um comunicado, Zuñiga mencionou que haveria mudanças, mas não confirmou a ocorrência de um golpe de Estado. Em uma entrevista a uma emissora de televisão local, ele declarou: "Os três chefes das Forças Armadas vieram expressar nossa consternação. Haverá um novo gabinete de ministros; certamente, haverá mudanças, mas nosso país não pode continuar nesta situação."


Repercussões Internacionais


A comunidade internacional, incluindo países vizinhos e organizações regionais como a OEA (Organização dos Estados Americanos), reagiu com preocupação diante da escalada da crise na Bolívia. Pedidos de moderação e respeito à ordem constitucional foram feitos por diversos líderes mundiais e organismos internacionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) manifestou apoio a Luis Arce e condenou veementemente qualquer tentativa de golpe. Ele afirmou que a posição do Brasil é inequívoca: "Sou um defensor da democracia e quero que ela prevaleça em toda a América Latina. Condenamos categoricamente qualquer golpe de Estado na Bolívia e reiteramos nosso compromisso com o povo e a democracia neste país irmão."


O presidente de Honduras, atualmente liderando a presidência da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), mencionou a possibilidade de golpe de estado e solicitou uma reunião de emergência dos Estados membros, incluindo o Brasil. A OEA criticou essa ação e enfatizou a importância do respeito à democracia. A ex-presidente da Bolívia, Jeanine Añez, atualmente na oposição ao governo de Arce, também condenou a intervenção militar.


"Repúdio total à mobilização de militares na praça Murillo (em frente ao palácio presidencial) pretendendo destruir a ordem constitucional", disse. "Nós bolivianos defendemos a democracia".

Em um comunicado divulgado em suas redes sociais, Arce também enfatizou a importância do respeito à democracia. O presidente Lula expressou seu desejo de que a democracia prevaleça no país vizinho, afirmando que "golpes nunca deram certo". O Itamaraty declarou que o governo brasileiro está acompanhando de perto os acontecimentos na Bolívia.


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