Clima: La Niña traz alívio temporário após intenso período de El Niño
A projeção aponta que o mundo não deverá enfrentar um resfriamento devido ao La Niña. Ao invés disso, espera-se um leve alívio nas altas temperaturas. A incerteza reside na possibilidade de o aquecimento persistir em outros oceanos, como ocorreu com o Atlântico e o Índico durante o El Niño. Embora haja uma tendência para uma diminuição modesta, é provável que o aquecimento global prossiga.
La Niña é caracterizado por resfriamento das águas do Pacífico Equatorial - Foto Reprodução/NOAA
Após um período de intensa atividade climática marcada pelo fenômeno El Niño, o mundo agora vira sua atenção para o seu oposto, La Niña. Com previsões indicando sua chegada, especialistas esperam que esse fenômeno traga um alívio momentâneo para diversas regiões afetadas pelas condições extremas geradas pelo El Niño. No Brasil, há expectativa de que as ondas de calor e as chuvas intensas em áreas já afetadas sejam mitigadas, porém, a seca pode agravar a situação em regiões como o Pantanal.
Cientistas alertam que essa tendência não altera o quadro do aquecimento global. Após uma temporada de superaquecimento, os sinais indicam que as águas do oceano Pacífico tendem a ficar mais frias do que o habitual. O fenômeno El Niño, que causou uma série de temperaturas recordes e eventos extremos no Brasil, está quase dando lugar ao seu oposto, La Niña. Marcelo Seluchi, coordenador geral do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), enfatiza que a sequência de eventos não é ordinária e requer um acompanhamento contínuo à medida que se desdobra.
"O planeta como um todo fica mais quente em anos em de El Niño. 2023 foi o mais quente da história conhecida. É preciso aguardar um pouco ainda para ver como será 2024 com o La Niña se formando”, comenta Seluchi em entrevista à DW.
O que é La Niña?
La Niña é um fenômeno climático caracterizado pelo resfriamento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Ocorre como parte do sistema climático natural conhecido como Oscilação Sul (ENSO), que também inclui o El Niño. Enquanto o El Niño é marcado pelo aquecimento das águas do Pacífico Equatorial, La Niña é sua contraparte, associada a temperaturas mais frias do que o normal nessas mesmas águas.
Alívio temporário após El Niño
O fenômeno El Niño, que geralmente traz condições climáticas extremas como secas prolongadas, enchentes e alterações nos padrões de temperatura, tem sido particularmente intenso nos últimos meses. Essas condições adversas afetaram várias partes do mundo, causando impactos significativos na agricultura, na disponibilidade de água e até mesmo em eventos climáticos extremos, como tempestades e furacões.
Antes do último El Niño consolidar-se, em maio de 2023, o fenômeno oposto estava em vigor e permaneceu ativo por três anos consecutivos (2020-2023), uma extensão considerada incomum. Durante esse período, uma seca persistente assolou, resultando na perda de colheitas e desencadeando a pior crise hídrica na bacia do Paraná-Prata em 78 anos. Essa bacia é crucial para o abastecimento dos reservatórios fundamentais para a produção de energia hidrelétrica.
Possíveis consequências de La Niña
Embora La Niña possa trazer algum alívio temporário, é importante estar ciente de suas próprias implicações. Em algumas regiões, as chuvas podem ser mais intensas do que o normal, aumentando o risco de inundações e deslizamentos de terra. Por outro lado, áreas que dependem das chuvas para a agricultura podem enfrentar secas prolongadas, afetando a produção de alimentos e a segurança alimentar. Inicialmente prevê-se que a chegada do La Niña a partir de junho resultará em precipitações acima da média em partes da região Norte, Minas Gerais e Bahia. Enquanto isso, na região Sul, que enfrentou enchentes históricas em algumas áreas devido ao El Niño, as chuvas devem agora se manter abaixo da média.
Além disso, La Niña também pode influenciar os padrões de temperatura em diferentes partes do mundo. Enquanto algumas regiões podem experimentar temperaturas mais frias do que o normal, outras podem enfrentar ondas de calor mais intensas. Com a iminência de La Niña, existe a expectativa de que algumas dessas pressões climáticas possam ser atenuadas. Embora La Niña também possa trazer desafios próprios, como chuvas intensas em algumas áreas e secas em outras, a mudança no padrão climático pode oferecer um breve respiro para comunidades que enfrentaram dificuldades durante o período de El Niño.
As consequências de La Niña não se limitam às regiões diretamente afetadas. Devido à sua influência nos padrões climáticos globais, esse fenômeno pode ter ramificações em escala global. Por exemplo, mudanças na temperatura do Oceano Pacífico Equatorial podem afetar os padrões de vento em grandes áreas, impactando os padrões de precipitação em todo o mundo.
Impacto significativo do El Niño no agronegócio
Nos últimos meses, no Rio Grande do Sul, os produtores rurais enfrentaram um caos climático considerado um dos mais complexos já registrados na região. Segundo Alencar Rugeri, especialista da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) do estado, uma série de fatores como o excesso de chuvas, variações na luminosidade que afetaram a fotossíntese e a polinização, juntamente com o surgimento de doenças anteriormente incomuns, resultaram em sérios danos à safra de milho.
Devido aos impactos do El Niño, o período de plantio da soja, geralmente iniciado em outubro, foi adiado para dezembro, causando desafios significativos no planejamento e colocando os produtores em uma situação delicada, como destacado pelo especialista da Emater. Os efeitos sobre a soja ainda não foram completamente avaliados, pois este é um período crítico e vulnerável, com duração de aproximadamente 130 dias. Essa alteração aumenta o risco de várias outras complicações, havendo uma pressão mais intensa de doenças, como a ferrugem", detalhou Rugeri ao DW.
De acordo com o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há uma projeção de queda de 4,7% na safra nacional de grãos em comparação ao ano anterior. Isso resultaria em uma produção total de 300,7 milhões de toneladas em 2024, em contraste com as 315,4 milhões de toneladas colhidas em 2023.
Aquecimento global
Cada vez que a temperatura superficial do Pacífico Equatorial cai 0,5°C abaixo da média histórica, é categorizado como La Niña. Quando essa variação é para cima, o El Niño ocorre. O resfriamento momentâneo no Pacífico previsto para ocorrer na segunda metade do ano não altera a tendência de aquecimento global, enfatiza José Marengo, um climatologista que lidera as pesquisas e desenvolvimento no Cemaden. Ele ressalta que são conceitos distintos: o aquecimento global é um processo de longo prazo, enquanto a La Niña é uma variabilidade climática de curto prazo, com duração de cerca de um ano.
Durante a última fase desse fenômeno, causado pelo resfriamento do Pacífico Equatorial, observou-se que a temperatura média global continuou a aumentar, embora em um ritmo mais lento. Até o final de 2023, a Organização Meteorológica Mundial relatou que a média da temperatura da Terra estava 1,45°C acima dos níveis pré-industriais (1850-1900).
Embora não estejamos prevendo um resfriamento global devido ao La Niña, podemos esperar um certo alívio nas ondas de calor. Contudo, é incerto se o aquecimento persistirá em outros oceanos durante esse evento, como ocorreu no Atlântico e no Índico durante o El Niño anterior. Pode haver uma leve diminuição, mas é importante ressaltar que o aquecimento global continua, conforme observado por Marengo.


























