Javier Milei: Desafios e perspectivas para a governabilidade do novo Presidente da Argentina
Aos 52 anos, Milei vence Sergio Massa no 2º turno e será o 52º presidente do país. Sua posse está programada para dezembro, marcando o início de um mandato de quatro anos. Dentre suas propostas destacam-se a dolarização da economia e o fechamento do Banco Central.

Javier Milei, é eleito novo presidente da Argentina - Foto Reprodução/Agustin Marcarian/Reuters
Em uma reviravolta política surpreendente, o economista e político ultraliberal argentino Javier Milei (La Libertad Avanza) venceu no domingo (19), o peronista Sergio Massa (Unión por la Patria), no segundo turno das eleições presidenciais de 2023 na Argentina. O candidato peronista admitiu a sua derrota antes mesmo da divulgação dos resultados oficiais da Câmara Nacional Eleitoral. Cerca de 26 milhões (76%) dos eleitores argentinos votaram nas eleições. O economista ultraliberal assumirá o cargo em dezembro, iniciando um mandato de quatro anos.
Ao final da apuração das urnas, Milei assegurou 55% dos votos, enquanto Massa ficou com 44%. A surpreendente diferença de cerca de 3 milhões(11 pontos percentuais) e é notável, especialmente considerando que as pesquisas indicavam uma disputa mais acirrada. Milei foi mais votado em 20 das 23 províncias do país, além da capital Buenos Aires, que é uma cidade autônoma. A vitória de Milei marca um ponto de virada nas eleições argentinas e reflete uma crescente demanda por mudanças substanciais na política do país.
A campanha de Milei: Discurso radicais e ideias libertárias
Javier Gerardo Milei, conhecido por sua retórica contundente e ideias econômicas libertárias liberal ou minarquista, atraiu a atenção durante sua campanha por suas propostas radicais, como acabar com o Banco Central do país, reduzir ao mínimo o papel do Estado, promover a dolarização da economia Argentina e acabar com a “casta política”.
Adotar a dolarização implica renunciar ao peso argentino, adotando o dólar norte-americano como a moeda oficial do país. Contudo, esse procedimento não é tão simples quanto parece. Seria necessário o apoio da Casa da Moeda dos Estados Unidos para a obtenção de dólares, e o país ficaria sujeito às decisões de política de juros do Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano.
Outra promessa enfatizada por Milei ao longo de sua campanha era a extinção do Banco Central da República Argentina (BCRA), uma medida correlacionada à dolarização. Isso ocorreria porque, ao depender do dólar e das decisões do Fed, a Argentina abriria mão de sua soberania monetária, cessando a capacidade de realizar arbitragem nos juros básicos da economia. O BCRA perderia sua função primordial. Contudo, na prática, isso poderia se tornar um desafio para a economia. As decisões de aumento ou redução das taxas de juros seriam tomadas com base nos Estados Unidos, sem considerar as possíveis necessidades do panorama econômico argentino.
Durante sua campanha, Milei abordou a possibilidade de a Argentina se retirar do Mercosul e de realizar cortes nas relações internacionais com o Brasil e a China. Especialistas alertam que, além dos desafios legislativos para implementar tais propostas, é crucial considerar os impactos econômicos. Um eventual rompimento nas relações com o Brasil e a China, dois importantes parceiros comerciais, poderia ter repercussões significativas na economia argentina, com efeitos iniciais notáveis nas cadeias de valor do setor industrial.
Ascensão meteórica de Milei
Javier Gerardo Milei, economista, professor universitário e escritor argentino, alcançou destaque nos últimos anos devido à sua postura crítica em relação às políticas econômicas intervencionistas e à burocracia estatal. Antes de ingressar na esfera política, ele teve uma carreira no setor privado, trabalhando em instituições bancárias e em uma empresa responsável pela administração de contribuições e pensões. Milei também exerceu a função de economista-chefe na Fundação Acordar, vinculada ao peronista e ex-candidato presidencial Daniel Scioli.
Milei ganhou maior visibilidade entre o público argentino ao ser convidado para participar de programas de rádio e, principalmente, de televisão. Em 2021, sua ascensão foi marcada por uma retórica inflamada, caracterizada por uma postura "contra tudo e contra todos", culminando em sua vitória nas eleições para o cargo de deputado federal pelo partido A Liberdade Avança, o qual fundou no mesmo ano. Analistas políticos frequentemente o comparam aos ex-presidentes americano Donald Trump e brasileiro Jair Bolsonaro.
Durante a campanha, a vida pessoal de Milei tornou-se um tema de discussão, devido à publicação de uma biografia não autorizada pelo jornalista Juan Luis González. Nessa biografia, é revelado o envolvimento do economista com o esoterismo após a morte de seu cachorro, Conan, em 2017. Milei fez uma clonagem do animal e buscou maneiras de se comunicar com ele após o falecimento. Seus outros quatro mastins ingleses também são clones de Conan, nascidos de um procedimento nos Estados Unidos. Amigos e conhecidos afirmam que ele também afirma ter a capacidade de se comunicar com economistas falecidos.
Perspectivas para a governabilidade
Na atual disputa legislativa, o partido A Liberdade Avança, liderado por Milei, registrou o maior crescimento, passando de três deputados e nenhum senador para 38 deputados e oito senadores. Em 22 de outubro, os argentinos participaram do primeiro turno das eleições presidenciais, renovando simultaneamente 130 das 257 cadeiras na Câmara dos Deputados e 24 das 72 no Senado.
Na próxima legislatura, a legenda de Milei se estabelecerá como a terceira maior força no Congresso, ficando para trás da coalizão peronista de Sergio Massa, que detém 108 cadeiras na Câmara, e da coalizão de centro-direita liderada no primeiro turno pela ex-ministra Patricia Bullrich, que conquistou 93 deputados. Somados, os partidos de oposição ao peronismo (Liberdade Avança e Juntos pela Mudança) superam em número de deputados a bancada da União pela Pátria.
A eleição de Javier Milei como Presidente da Argentina representa uma guinada significativa na política do país. Seu desafio agora é transformar suas promessas em ações e gerenciar uma nação que enfrenta desafios complexos, como lidar com a mais grave crise econômica em décadas, descrita por inflação uma inflação anual de 142%, a mais alta em mais em 30 anos. Além disso, aproximadamente dois quintos da população vivem na pobreza, e há uma desvalorização cambial significativa. Esses desafios são agravados por uma dívida externa bilionária e pela escassez de reservas internacionais.
Desafios Diplomáticos e Internacionais
A eleição de Milei também levanta questões sobre como sua administração lidará com as relações exteriores. A Argentina tem laços significativos com países da região e além, e a abordagem de Milei em relação a acordos comerciais, questões ambientais e cooperação internacional serão observadas de perto.
O mercado demonstrou uma significativa aversão ao risco diante dos planos de fechamento do BC e dolarização, evidenciado pela reação dos investidores quando Milei se destacou nas primárias em agosto. Devido ao feriado na Argentina nesta segunda-feira (20), os impactos da eleição de Milei provavelmente só serão percebidos na terça-feira (21).





















